Na festa da vida, encontro minha amiga Judith brincando de roda. O vestido de verão soltinho no corpo, rosto corado, olhos alegres. Pergunto como vai e a resposta vem cheia de música: "Eu? Eu vou sempre bem! Venha, vamos dançar, venha..." |
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Na sala do apartamento, um grupo de mulheres descalças forma o círculo. Alguém coloca um CD e a dança começa – para um lado, para outro, três passos à frente, volta, passa por trás... Vou seguindo como posso, e aos poucos a coreografia vai entrando. Não é tão complicada, afinal. Só que acaba logo, e começa outra. Esta, me explicam, vem dos índios americanos. Os passos são diferentes. Alguém me ensina a voltinha, a música começa, e lá vamos nós, índias americanas. Depois entra uma música grega – divertida, com aquele jeito Zorba de dar um pulinho e levantar a perna, e lá vamos nós, gregas, sempre em roda, dando as mãos, soltando, girando. Dançamos então uma música chinesa em que o vento nos balança, em seguida uma judaica que mostra o sábio e o louco, e depois outras, e outras mais.
Minha amiga tem 82 anos e está feliz. "Por que não estaria?", diz ela. "A vida é tão simples, não existe problema, as pessoas é que complicam as
coisas!"
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O movimento das danças sagradas circulares surgiu nos anos 70 na
comunidade de Findhorn, Escócia. Houve um encontro sobre renovação da
espiritualidade onde um professor alemão de dança apresentou a tradição
dessas danças. De lá para cá, inúmeras pessoas foram tocadas pelo resgate
do que sempre nos fez dançar juntos quando celebramos a vida, a morte, os
ciclos da terra e da lua, os encontros, as despedidas. Rituais do mundo
inteiro, e de todas as etnias, originalmente reuniam as pessoas em roda.
Com o passar dos séculos a roda transformou-se em duas linhas, depois
começamos a dançar aos pares e hoje dançamos sozinhos. Qual seria o
sentido, afinal, de voltarmos a dançar todos juntos?

Textos da internet respondem que, quando você mal conhece os moradores da
porta ao lado, dançar junto tem o dom de criar harmonia rapidamente e sem
palavras. Que existe um poder no círculo, no grupo de pessoas que se dão
as mãos e se movem juntas, em harmonia com ritmos, melodias e passos que
sobreviveram aos séculos. Que as danças circulares restabelecem
sentimentos comuns a todos os seres humanos e por isso são tão
transformadoras. Ninguém precisa ser um dançarino treinado, basta entrar
de coração aberto para compartilhar esse transbordamento de espírito e de
alegria.
Penso em Judith e lembro de Shiva Nataraja, o deus hindu que dança porque
tudo aquilo que existe, vivente ou não, pulsa em seu corpo. Nele se vê
todo o movimento cósmico. Nele a arte e a espiritualidade são uma unidade
perfeita, escolhida para representar o divino porque, na dança, o que é
criado é inseparável do criador.
Sonia Hirsch , março de 2004
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